JORNALISTA JORGE CASTRO

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ELEIÇÕES DE 1989-UMA ANÁLISE PARA FICAR NA MEMÓRIA

     Recentemente na história do país, mais propriamente em 1989, após o regime militar implantado com o golpe de 1964, houve a primeira eleição presidencial. O povo estava ansioso em eleger diretamente um presidente. Como os militares eram contra a estatização de alguns setores como a comunicação, o fim da ditadura era conveniente à política de capital estrangeiro. Com a abertura política realizada no governo do ex-presidente, João Baptista de Oliveira Figueiredo, iniciou-se o processo de redemocratização do Brasil culminando com a eleição de Fernando Collor de Melo à presidência.

     Mas apesar da importância do momento histórico, esta eleição foi marcada por situações de extrema reflexão quanto ao papel da tríade imprensa, marketing político e pesquisa de opinião. A televisão, principal meio para propagação da política junto às massas, exerceu, segundo especialistas, influência sobre os eleitores baseando-se na premissa de que o fato jornalístico, processo seletivo de uma notícia que é uma versão do fato, é editado antes de ser divulgado pela mídia.

     Sem dúvida, a eleição presidencial de 1989, realizada depois de 29 anos sem eleições diretas para presidente, aparece como acontecimento detonador de um boom imediato e posterior de reflexões sobre o enlace mídia e política. Pode-se afirmar que este acontecimento eleitoral, ao fazer emergir em toda sua potência estas novas conexões entre mídia e política, começa verdadeiramente a conformar um campo de estudos sobre comunicação e política no país, perpassado por olhares sintonizados com esta nova circunstância de sociabilidade acentuadamente midiatizada . (RUBIM e AZEVEDO, 1998: 192).

     O jornalista Paulo Henrique Amorim, ex-funcionário da Rede Globo de televisão, onde atuou como editor de economia em 1989, contextualizou em seu artigo O Bom e o Mau, publicado pela Revista Carta Capital, nº113 de 1990, fatos relevantes de um episódio que pode ter sido decisivo no processo eleitoral daquele ano. De acordo com o artigo, o presidente das organizações Globo, Roberto Marinho, não havia gostado da edição do último debate do segundo turno publicada pelo Jornal Hoje e mandou que o Jornal Nacional mostrasse tudo que fosse favorável ao então candidato Fernando Collor e tudo que fosse desfavorável ao seu adversário, Luiz Inácio Lula da Silva. O jornalista afirma que presenciou na ilha de edição o presidente do partido de Collor, Daniel Tourinho, e Alberico Souza Cruz, ex-editor do telejornal na ilha de edição do jornal. “Vi por ali, como se fosse um dos nossos, o Daniel Tourinho, presidente do PRN, o partido do Collor. Vi o Alberico na ilha. Não importa se ele disser que não editou” , conta Paulo Henrique Amorim. Então, dezembro de 1989, eu era editor de economia da Rede Globo. Na sexta-feira, dia 15, ao chegar à redação, percebi que uma tempestade se formava. Conversei com o Ronald Carvalho, editor de política. Com Wianey Pinheiro, responsável pela cobertura das eleições e também responsável pela edição do debate que o jornal Hoje, ao meio-dia, tinha exibido. Zanzei pela redação e ilhas de edição e soube: o Dr. Roberto não gostou da edição de Hoje e mandou o Jornal Nacional dar tudo o que fosse bom para o Collor, e tudo o que fosse mau para o Lula. O Alberico mandou o Ronald editar como se fosse à luta em que o Mike Thyson destroçou o pobre coitado do Pinkle Thomas, dias antes transmitida pela Globo . (AMORIM, 1999).

     Por outro lado, uma versão de Armando Nogueira, então diretor da Central Globo de Jornalismo, reproduzida pela edição nº 1869, de 1º de setembro de 2004, da revista Veja, afirma que Alberico de Souza Cruz, ex-diretor de telejornais da rede foi o responsável pela edição do debate. Armando Nogueira o acusa de “deslealdade e traição profissional”. “Foi má-fé do Alberico, que servia não à empresa, mas ao Collor, a entourage do Collor” , explica Armando Nogueira. Já Alberico de Souza Cruz não assumiu sua participação na edição do debate. O responsável seria o editor de política, Ronald de Carvalho, que recebera ordens de Alice-Maria, diretora executiva, que por sua vez, teria acatado ordens da família Marinho. Ronald de Carvalho assumiu total responsabilidade pela edição. Otávio Tostes, editor de texto do Jornal Nacional desmente a versão e afirma que ele mesmo foi o responsável pela edição e que atuou à revelia e sob as ordens de Ronald de Carvalho e Alberico de Souza Cruz.

     O doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas pela Universidade Federal da Bahia, jornalista e escritor, Emiliano José, ressalta em seu artigo Imprensa e Poder, não só o papel da imprensa e sua responsabilidade na construção de candidaturas que representem os projetos políticos dos grandes conglomerados empresariais da mídia, como a sua participação no poder, defendendo seus próprios interesses e os das classes dominantes.

     Collor, sabe-se, claro, não é produto apenas da mídia. Mas é também um produto dela. Não apenas da Rede Globo, este conglomerado tão íntimo do poder político após 1964, que dispensa esforço maior de demonstração. Produto também do restante da imprensa brasileira, que se dedicou de forma disciplinada, determinada, a colaborar com “o caçador de marajás” (a revista Veja que o diga), para que ele chegasse aonde chegou. Qualquer pretensão à inocência ou a uma atitude puramente jornalística pode soar como insulto à inteligência dos cidadãos comuns .

      Entretanto, o escritor observa que a imprensa tem que destacar sua verdadeira missão revolucionária e o jornalismo deve possibilitar as discussões de alternativas viáveis para o Brasil.

     (…) um elemento essencial na construção, agora muito mais acelerada, de um país que marginaliza a maioria da sua população, que retira direitos sociais, que privatiza tudo, que reduz tudo a mercado. Ela não cobre este país injusto. Ela constrói diariamente este Brasil. Não são apenas os crimes pontuais do jornalismo que devem ser discutidos. Mas este, o maior, o de ser construtor, e não apenas cúmplice, dessa sociedade crescentemente injusta e excludente. Para tristeza de quem acredita no potencial do jornalismo .

[11] Disponível em

http://www.scielo.br/pdf/ln/n43/a11n43.pdf. Acesso em: 08/11/2011.

[12] Disponível em

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd20012000.htm. Acesso em: 12/09/2010.

[13] Disponível em

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd20012000.htm. Acesso em: 12/09/2010.

[14] Disponível em

http://veja.abril.com.br/010904/p_100.html. Acesso em: 12/09/2010.

[15] Disponível em

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd20012000.htm. Acesso em 11/11/2010.

[16] Disponível em

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/artigos/jd20012000.htm. Acesso em 11/11/2010.

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